Falta.
quando a pausa domina e o tempo estaca, como que se acolhe a falta? como que se liberta? ela é discreta. vem cá, por falta de cuidado, a falta é aberta ou só me sobra? é que não sei me permitir sentir no horário da pausa. me diz, você já teve isso de sentir que o mês dura quase uma vida? é que de vez em quando eu sinto que tenho várias. eu penso muito, não repouso sequer, ainda mais quando teu excesso é demanda, motor, indício. não sei, me assusta. vem cá, me diz qual é o significado de tudo. um nível, um tema, um campo sobre as diferenças, não me importo, é a sua linguagem evoluindo. arrasto o sotaque da esquina da escola para tapear meu devir desacreditado.
são pequenas fronteiras à falta de transparência lúcida, o significado de tudo. é interlúdio, entreato, intermeio e eu perco até o tempo. me diz, o que falta nessa extensão que te sobra? o meu se escoa bem no lapso da página. perfura o estoque mesmo, aquele aperto todo de pequenas coexistências.
afinal, tu me diz que o temporário é intemporal.
e é no ponto parado que o mergulho é mais profundo.
Julia Peccini é natural de Niterói, no Rio de Janeiro e vive em Portugal desde 2018. É graduada em Português com menor em Línguas Modernas na Universidade de Coimbra e mestranda em Estudos Editoriais. É poeta e vê sua escrita como um processo inacabado de resistência e afirmação de si. Tem participação em revistas, antologias e festivais literários no Brasil e em Portugal. É autora dos livros “Aqui cabe um poema” e Nem só de amor vive Afrodite, publicado pela Casa Philos, seminalista do Prêmio Oceanos 2023 na categoria de Melhor Livro de Poesia.
Tainá Camilo [1984] é artista visual, nascida no Rio de Janeiro, onde reside e produz. É graduada em Design de Moda [2020], pós-graduada em História da Arte [2021]. Atualmente faz parte do curso contínuo “Pintura além do quadro” na Escola de Artes Visuais Parque Lage [EAV-Rio] e é Residente da Casa da Escada Colorida, no Rio de Janeiro. Utiliza a pintura como linguagem artística. Sua pesquisa segue uma verve expressiva abstrata e com desejo de prover materialidade e corporeidade pro objeto tela, trazendo novas perspectivas para fora do chassi. Investiga a plasticidade dos materiais banais como a estopa, a areia, o quartzo e como se comportam em diversas combinações de transbordamento. Com a Casa Philos, participou das coletivas “Esperem o que quiserem”, na feira Nano Art Hub [São Paulo, 2024]; da individual e mesa “A arte do artista” na Casa Philos, na Feira Literária Internacional de Paraty [FLIP 2023]; e das mesas de debate “Espelhos do Abismo”, na Casa Philos na Feira Literária Internacional de Paraty [FLIP 2022] e “Nas margens do que se lê”, na Casa Philos no Nano Art Hub. Para além da coletiva “Outras línguas dizem outros nomes”, na Casa da Escada Colorida, no Rio de Janeiro [2023]; exposição coletiva e participação da mesa “Espelhos do Abismo”, na Casa Philos na Feira Literária Internacional de Paraty [FLIP 2022]; coletiva “Bem Comum”, projeto contemplado no programa de Fomento à cultura carioca [FOCA] da Secretaria Municipal de Cultura, Prefeitura do Rio de Janeiro, pela Galeria Nômade [2022].